domingo, 25 de setembro de 2011

Estágio

Tem certeza mesmo, doutor? Não posso recorrer à tratamentos alternativos que me devolvam a substância da qual meu cérebro necessita pra sentir prazer nas coisas simples da vida?
- Você pensa em suicido?
- Não, nunca pensei. Nunca tive tesão pela vida, mas enquanto estiver aqui, vou vivendo.
- Prefere estar morto?
- Hoje não. Tenho medo de não viver um amor. Antes, a morte só me assustava pela forma que, possivelmente, se apresentaria a mim. Com dor, sem dor, feia, bonita., mas seria finda uma jornada. A vida me pesava, hoje, não.
- Então quais são os seus medos?
- Medo de ter medo. Isso me causa um medo constante. Um pânico de ter medo. Uma síndrome-do-pânico-do-medo.
- Acha isso normal?
- Nunca me achei normal
- O que te faz pensar que é diferente das outras pessoas?
- Eu sou inconstante. Sou excêntrico. O senhor falou em bipolaridade do humor... existe insanidade consciente? Embora não tenha atitudes insanas, minha mente é uma máquina de pensar bobagens. Sim, todos os níveis de bobagens, doutor. Só não penso em me matar. Um simpatizante espírita tem medo das via umbralinas.
- Qual a influência da religião em sua vida?
- A fé me motiva. A gente sempre precisa de uma motivação. Acredito em Deus por que acredito numa vida paralela à essa que vivemos, aqui. A religião as vezes evita que eu tome remédios, desses que o sr. me receitará.
- Você acredita numa vida paralela à essa por que tem visões, vê vultos, conversa com eles?
- (Riso) Acredito que estarei com eles na primeira dosagem de sais de lítio. Tenho medo de remédios (mais um medo).
- O remédio também não deveria ser uma motivação por representar melhoras nos seus sintomas de ansiedade?
- Eu prefiro motivações que me façam sorrir. Estou aprendendo a gostar da vida, de verdade. Estou aprendendo a amar. Eu não sabia amar.
- Como está aprendendo?
- Estou sendo motivada por alguém.
- Você sente que precisa de outras pessoas para alcançar seus fins de equilíbrio sentimental?
- Eu me equilibrei muito tempo sozinha, sempre segurei a minha onda. Eu sempre me senti sozinha. Ninguém tem culpa! Eu me desordenei, baguncei meus sentimentos, mas cabe mais gente na minha corda bamba. É claro que eu preciso das pessoas. Preciso estar perto delas, mas não sou louco, doutor. Eu sei que o meu mal, pode ser o mal de cada pessoa que me ama.
- Não é nada de mais. Agora me ouça: a agitação dos seus pensamentos significa a produtividade do seu cérebro. Existe aí, um excesso de criatividade seguida de uma necessidade aguda de observação. A atenção aos fatos e a criação de hipóteses segundo a sua imaginação, pode ser perturbadora, assim como já vem sendo. É comum, mas não é normal. Isso exige um tratamento médico, com medicamentos que nos ajudará a descobrir qual a substância que lhe falta.
Começaremos com alguma droga estabilizadora do humor, não lhe receitarei nada pesado. Alternaremos o tratamento medicamentoso com sessões de psicoterapia.
- Doutor, eu não sou louco, né?
- Você é o que você acredita ser!
- Até a próxima consulta.

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